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Durante quase um século o nome Espírito Santo foi sinónimo de poder, de respeitabilidade, de segurança. Clientes, investidores e Estado, confiavam nas suas decisões e nas opiniões que emitiam sobre quase todos os temas nacionais. Um nome que influenciou decisões e condicionou governos e empresas. Foi assim na I República, no Estado Novo e na democracia. A família fundadora de um dos maiores bancos portugueses construiu uma aura de seriedade e de confiança que agora desapareceu, subitamente e com estrondo. São acusados de conduzirem o banco da família para o abismo e de enganarem o regulador, os clientes, pequenos e grandes investidores, que neles confiaram e a quem ajudaram a reconstruir um império empresarial. São acusados de esquemas fraudulentos, de endividamento excessivo, de práticas ilegais, no fundo de construírem um grupo com pés de barro. Cabe pois à Justiça provar que é igual para todos, ricos ou pobres, fracos ou poderosos, não deixando margens para dúvida de que, qualquer coincidência não passa disso mesmo: uma coincidência.
 
A imagem do país é certamente afetada, pela dimensão do caso e pela notoriedade da família. Aquilo que outrora fora um “Asset” é hoje um problema, o nome. As notícias da intervenção do Estado no BES são manchete em jornais e noticiários de todo o mundo. Mas como em tudo na vida, esta situação tem pontos positivos e que nos podem ajudar a, de uma vez por todas, acabar com uma mentalidade presa a princípios do século XIX, ao caciquismo e ao amiguismo próprio de outros tempos.
 
A verdade é que Portugal continua a ser um país de amigos e favores, onde a progressão se baseia em conhecimentos e não no mérito, onde grassa o tradicional ao invés do inovador, onde a inveja é a rainha do pensamento geral. Continuamos um país onde se protegem os fortes e se oprimem os que têm novas ideias, não lhes dando oportunidade de criarem projetos novos e de nos guiarem para um futuro mais promissor. Esta situação ensina-nos, sobretudo, que decisões tomadas com base em amizades raramente são as melhores e que nos podem colocar em sérios apuros. 
 
Precisamos, por isso, que o Estado “abandone” a economia, mas se foque na regulação, de um Estado que crie mecanismos de justiça adequados para investigar e punir quem tenha comportamentos desviantes, mas sobretudo um Estado que crie mecanismos que previnam situações como esta. Precisamos de reformar Portugal, aumentar a regulação e torná-la invasiva. Temos de acabar com os interesses das corporações que se instalaram em toda a sociedade e que impedem o desenvolvimento do país e a concorrência. Precisamos de mudar. E isso nunca é fácil.
 
Muito se irá falar, e por muitos anos, do que aconteceu ao Banco Espírito Santo e ao grupo de empresas do mesmo nome, algumas vezes com razão e racionalidade outras com demagogias e populismos que, ao invés de contribuir para um país melhor, contribuirá para a confusão e para a incerteza. Cabe-nos a nós, cidadãos, exigir mais atos e menos palavras. Precisamos de ação. Em Portugal, tendemos a falar muito no auge dos problemas, mas rapidamente passamos à frente sem nada aprender com o nosso passado.
 
Precisamos, por isso, de gente nova, com novos pensamentos e com experiência de trabalho e não de carreirismos políticos. Precisamos de gente sem medo e sem nome, que trabalhe em prole de todos e nunca em benefício de alguns. Precisamos de quem tenha uma vida que não dependa do Estado e dos amigos para conseguirmos evoluir.
 
Posso até ser ingénuo em acreditar que somos capazes de mudar, mas faço-o convictamente, porque acredito que temos as pessoas e os conhecimentos necessários e apenas nos falta a vontade e a determinação. Veremos, pois, que tipo de ensinamento tiraremos de mais uma história das muitas que já tivemos.
 
Texto por: Bruno Carneiro, CEO da Servdebt @ jornal Vida Económica Nº 1553 / 22 de agosto 2014 
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